“Não vejo razão para trocar o comando da seleção”, diz Ednaldo Rodrigues - TÁ NA ÁREA

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“Não vejo razão para trocar o comando da seleção”, diz Ednaldo Rodrigues

 

Confirmado para presidir a CBF desde que o ex-presidente Rogério Caboclo teve a suspensão de 21 meses referendada pela Confederação, o baiano Ednaldo Rodrigues tem entre os seus maiores desafios virar a página no episódio que atingiu o ex-dirigente da entidade. Nessa entrevista exclusiva ao A TARDE, Ednaldo conta detalhes dos dias tortuosos que balançaram as estruturas da CBF, fala dos campeonatos regionais e do futuro do futebol brasileiro. “O modelo de campeonatos estaduais longos e deficitários é coisa do passado”. Questionado sobre as críticas a Tite e à comissão técnica da seleção brasileira, Ednaldo diz ainda não ver “razão para que possa trocar o comando da seleção”. Confira:

Qual o maior desafio que o senhor tem nesse momento à frente da CBF?

Quero começar agradecendo a todos do Jornal A Tarde e principalmente a todos os seus leitores. É um jornal que transmite credibilidade e por muito tempo nos auxiliou muito no nosso trabalho na gestão da Federação Baiana de Futebol. Queria dizer que o principal desafio é exatamente nós virarmos uma página ruim, negativa da CBF com relação a esse episódio recente do presidente afastado Rogério Caboclo e fazer um trabalho que sempre possa, tanto federações quanto clubes, seja de que série for, A, B, C, D, os clubes do futebol estadual também, que possa falar a mesma linguagem no sentido de unificar o futebol e pacificar o futebol, porque hoje a gente verifica muitos imbróglios que envolvem todas as naturezas. Portanto, hoje o principal desafio é exatamente deixar a CBF com o ar bem puro e com isso todo o futebol brasileiro em todas as federações e em todos os clubes.

O Rogério Caboclo teve a confirmação da suspensão de 21 meses pela CBF. Como o senhor avalia todo esse episódio?

Exatamente hoje faz 4 meses que tudo isso começou. Eu estava em Salvador, numa sexta-feira à noite, quando fui acionado pelo conselho de administração da entidade, formado pelos oito vice-presidentes, que estava acontecendo um problema muito sério que já se falavam, mas não se tinham provas e a gente não sabia direito. Eu tive que sair de Salvador no dia seguinte, para que não só eu, mas também os demais ex-presidentes, porque chegou no conselho de ética uma denúncia de uma funcionária, em que ela fala de uma forma muito explícita e com provas contundentes com relação ao assédio sexual e moral que ela sofreu dentro da instituição. E a partir dali foi a gente procurando dar norte para a diretoria da entidade, para os colaboradores, pois era uma coisa nova, inesperada, inusitada. Nos esforçamos para não deixar o trabalho parar. O restante era uma situação jurídica ruim porque envolveu o nome da entidade. Queríamos evitar que toda aquela situação respingasse e pudesse impedir os contratos de patrocínio que a CBF detém, o que em um momento ficou bastante crítico. Os patrocinadores não sabiam se continuariam, como seria o desfecho. E isso sem ter nenhuma pressão. A comissão de ética apurou todos os fatos dando total transparência, ouvindo todos os envolvidos, tanto a parte autora quanto a parte denunciada, ouvindo testemunhas, e, acima de tudo, a comissão de ética foi integralmente colocada pelo presidente afastado Rogério Caboclo. Então não foi uma comissão de ética inimiga do presidente e que por isso encontrou essa situação do presidente. Não. Foi uma comissão de ética escolhida e nomeada pelo presidente Rogério.

Que lições o senhor acredita que devam ser tiradas desse episódio? Inclusive o senhor, quando assumiu, prometeu mudanças práticas para evitar novos casos, novos episódios de assédio…

Isso tem que ser uma constante e não só por mim, que estou nesse momento como presidente interino, mas por qualquer um dos colaboradores, dos diretores, dos colegas ex-presidentes, dos que estão na arbitragem, enfim, por todos os segmentos que temos na CBF. É um combate a qualquer tipo de discriminação, seja ela de qualquer natureza, e qualquer tipo de assédio, seja moral ou sexual. Essa é uma vigilância constante, mas sabendo que cada um tem as suas responsabilidades naquilo que for praticar. Eu quero crer que daqui pra frente coisas dessa natureza não possam acontecer, não só na CBF, como no seio de toda a cadeia produtiva do futebol, principalmente entre as federações, os clubes, a arbitragem, enfim. Eu acho que essa situação vai nortear daqui para a frente os bons costumes.

Ao fazermos um retrospecto sobre quem antecedeu ao senhor, a gente percebe que quatro dirigentes tiveram problemas de desvios de conduta. Isso aumenta muito o desafio do senhor a partir de agora na CBF?

Eu costumo sempre dizer o seguinte: a gente não pode minimizar situações anteriores, como também não pode ficar olhando para trás. Eu costumo falar que quem olha pra trás não ganha a corrida. Nós temos que olhar de uma forma firme para frente, não esquecer um passado tão ruim que consequências trouxe para a imagem do futebol brasileiro, principalmente para a Confederação Brasileira de Futebol. Os nossos objetivos são: primeiro, confiança não se impõe, confiança é adquirida. E não sou eu que vou dizer que vou fazer totalmente diferente. Isso tem que ser todos vocês, aqueles que me conhecem, aqueles que não me conhecem, e olhando o nosso fazer, o nosso procedimento. E é com isso que eu quero fazer esse trabalho, mas sabendo que esse tipo de situação jamais vai acontecer comigo porque eu me policio com todas as questões que podem envolver dignidade, lisura, transparência. Isso não só eu, não é singular, isso é plural com todos os nossos pares de vice-presidentes e com todos os diretores e colaboradores dessa casa.

Presidente, o senhor conta com o apoio das 27 federações de futebol do país. Como a CBF pretende ajudar os clubes a equacionar os problemas de gestão que acabam impactando diretamente dentro do campo?

As federações têm sido apoio não só a mim, como também a toda a entidade. As 27 federações, até por força estatutária, são delegadas da CBF em todas as questões que envolvam competições. E o que a gente coloca sempre, a CBF e federações, nós não podemos colocar que federações e clubes não possam dar certo. Isso é um mito que muitos falam e que a gente sabe que na realidade, na prática, não é assim. Cada federação tem que ter a convivência muito ordeira e salutar com cada um dos seus filiados, indistintamente, sejam clubes da série A, B, C, D, com as ligas municipais que também são dependentes das federações no que diz respeito ao ordenamento desportivo. Mas os clubes, acima de tudo, têm que ter também um norte, força de expressão pra que eles possam reivindicar junto a suas federações, junto a CBF aquilo que possa ser melhor para cada clube. Nós temos uma CBF Academy, que é organizadora dos principais cursos de gestão e técnicos, não só para arbitragem, não só para os árbitros em si, mas enfim, colocando para gestores ensinamentos que sempre são disponibilizados para as federações, para os clubes. E eles têm participado de forma muito ativa. Então o que eu entendo é que no futebol, em qualquer divisão, tem que haver profissionalismo. O futebol brasileiro é muito profissional dentro de campo, com os atletas, tendo a qualidade dos melhores atletas em todo o mundo, mas fora de campo ele começa a se profissionalizar. Eu falo que começa a se profissionalizar porque ainda não está totalmente profissional. E é exatamente com essas ferramentas, seja com cursos na CBF Academy, cursos na Fundação Getúlio Vargas, ou qualquer outra instituição que tem modelo de gestão para que possa capacitar esses administradores de clubes e federações é que vai se tornar um futebol brasileiro mais competitivo e mais organizado.

Para o senhor, que ficou tantos anos à frente da Federação Baiana de Futebol, o que tem que ser feito para resgatar os campeonatos estaduais? Ou o senhor acredita que os campeonatos estaduais terão que dar espaço para competições nacionais, que ocupam cada vez mais a agenda do futebol brasileiro?

Eu entendo que existe lugar para todos. Tem muitos que falam e pregam que campeonatos estaduais tem que acabar, e eu respeito a opinião de cada um, mas eu acho que uma competição centenária como é o campeonato estadual, pelo menos na maioria das federações, como é o caso da Bahia, que fundou a Federação e já tinha campeonato baiano 5 anos antes da fundação da própria Federação. E assim é o futebol paulista, o cearense, o pernambucano, enfim. O que tem que acontecer é cada federação se conscientizar que é interessante que os principais clubes possam ter também uma tranquilidade para disputar as principais competições. Porque isso vai dar ranqueamento tanto para os clubes quanto para as federações consequentemente. Então o modelo de campeonatos estaduais longos e deficitários é coisa do passado. O campeonato estadual da Bahia é um dos mais enxutos do Brasil. É uma competição que tem 13 datas e que tem 51 jogos ao todo. Pelo menos foi até esse ano de 2021. E a maioria das federações principalmente do Norte e do Nordeste tem também já esse pensamento, já trabalha dessa forma. Porque esses campeonatos estaduais, pelo menos do Nordeste, são conjugados com a Copa do Nordeste que é muito atrativa para a região, onde está o sustentáculo técnico e financeiro para esses clubes que disputam. Assim também a Copa Verde que é com as equipes ali com as federações do Norte, inclusive vai ter essa abertura agora no dia 12 de outubro. Então cada vez mais tem que ter um calendário que seja bastante competitivo e que possa colocar os seus principais clubes em competições internacionais que não precise ficar o tempo todo ali jogando, viajando, jogando, viajando. Então tem que ter uma competição mais enxuta e com isso dar condições para que seus clubes possam avançar em competições internacionais e possam, com isso, ranquear melhor tanto os clubes como as federações.

Como o senhor vê as críticas que volta e meia acontecem demoras de definição através do sistema de apoio e arbitragem dos jogos?

Tudo que é novo tem que ser sujeito a adaptações. Então o VAR, se você verificar, há dois anos quando ainda se discutia colocar o VAR nas competições, teve um momento em que os clubes não foram a favor. No outro ano, já foram a favor. O VAR que era só na série A, hoje está na série B, está na série C, está na série D. Está nos campeonatos estaduais. E com isso que adaptar, fazer treinar mais pessoas qualificadas, árbitros qualificados para estarem operando o VAR, qualificar cada vez mais os árbitros em campo para que possam também tirar aquelas dúvidas e não ficarem tão dependentes do VAR. E isso é uma constante na comissão de arbitragem para que cada vez mais preparem, treinem esses árbitros e que com certeza em um tempo muito curto todas essas interrogações com relação ao que as pessoas que estão no VAR falaram, as discussões do VAR, isso num futuro muito próximo vai ficar também à disposição de cada um torcedor, de cada um dirigente, para que a transparência seja cada vez mais efetivada.

Como o senhor viu a suspensão do jogo entre o Brasil e a Argentina e o que o senhor acredita que acontecerá com esse episódio?

A suspensão do jogo Brasil e Argentina foi em um momento em que eu inclusive estava assumindo a CBF. Houve algumas informações, e para quem está no ar, naquele momento ali sem ter um jogo, recebeu de uma forma equivocada. Primeiro que o jogo não foi da seleção, não foi um jogo da CBF. Foi um jogo da FIFA e uma competição coordenada pela Conmebol. A CBF foi para lá jogar. Ela tem uma seleção brasileira e foi cumprir uma partida. Portanto, o que nós queríamos era que nossos atletas que continuaram em campo pudessem jogar. E houve ali um descumprimento total das regras da saúde do Brasil por parte de atletas da seleção argentina. Extrapolaram protocolos da quantidade de pessoas. E isso está bastante evidenciado em tudo aquilo que a CBF encaminhou para a FIFA. Portanto, eu não sei o que vai acontecer, mas o que nós esperamos ali é que a FIFA tenha uma decisão justa e para quem foi em campo e que queria jogar, que não atropelou nenhum processo sanitário do país, possa ter a sua causa reconhecida. Nós solicitamos no processo que a FIFA coloque os três pontos disputados, inseridos em cada partida em benefício da seleção brasileira.

Presidente, o Tite está sendo bastante criticado pela condução da seleção brasileira. O senhor pensa em trocar o comando técnico da seleção já pensando na copa do Catar?

A gente ouve muito isso. Nós sabemos que temos mais de 200 milhões de treinadores no Brasil, cada torcedor é um treinador. Respeito a posição de cada um, volto a falar, mas eu entendo o seguinte, quem está de dentro e quem acompanha sempre os jogos, o dia a dia da seleção, desde o despertar ali da comissão técnica e dos atletas, os treinamentos, o trabalho que cada um faz, não só o Tite, mas a sua comissão técnica, indistintamente, a gente sabe que qualquer um outro que pudesse estar ali poderia fazer igual. Não sei se poderia fazer melhor. A questão de discutir a situação de esquema tático, isso vai de cada um, também respeitamos. Mas temos que respeitar acima de tudo o treinador e sua comissão técnica que em inúmeras eliminatórias da Copa do Mundo têm 100% de aproveitamento. E se você colocar desde quando ele assumiu, ele tem mais de 80% de aproveitamento. Então quando a gente verifica esses números, não vejo razão para que possa trocar o comando da seleção. O que se pode fazer é cobrar, como qualquer um torcedor, e dizer “olha, não seria melhor assim?”. Eu acho que ele tem muito desprendimento e com certeza vai saber lidar. Mas eu acho que com esses números, trocar um comando técnico seria exatamente para não dar certo na Copa do Mundo, no meu entendimento, se troca um técnico depois de tanto trabalho que foi feito e com os números que no momento estão aí para todos reconhecerem.

Como o senhor vê a decisão de retomar os jogos com público no país, presidente? O que o futebol brasileiro sofrerá de mudanças com esse processo de pandemia que todos nós estamos acometidos?

A retomada do público não foi uma coisa tão fácil, não foi simples. Foi de uma forma muito estudada por toda uma comissão médica, em que temos o Dr. Jorge Pagura como o diretor médico. Envolvidos mais 120 médicos de todos os estados e de todos os clubes ali participando, verificando os números de contaminação de cada local, aquilo que aumentou, aquilo que diminuiu. Não foi tão fácil, não foi por querer. Foi algo bem pensado, bem estudado, e com certeza de uma forma gradativa, como está acontecendo. Não estamos abrindo estádios com a capacidade máxima deles, está sendo de uma forma daquilo que possa oferecer naquele momento. Em cada governo de estado, em cada município, tendo também os jogos respeitando todo o protocolo que a Secretaria de Saúde dos estados e dos municípios adote, e também dentro de um protocolo rígido que são exigidos para que atletas, imprensa e torcedores possam estar nessas partidas. *AT/Esportes

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